Ingrid Guimarães e Mônica Martelli celebram 'Minha Melhor Amiga' e o legado das duplas de humor no Brasil
A comédia Minha Melhor Amiga, estrelada por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, estreia nos cinemas nesta quinta-feira (3), consolidando a dupla no panteão do humor nacional. O longa-metragem, baseado nas memórias reais das atrizes, explora a amizade feminina e a química cômica que define décadas de sucesso no país.
A estreia de Minha Melhor Amiga nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (3) marca a entrada definitiva de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli no panteão das grandes duplas de humor do país. O longa-metragem, que tem como base as memórias compartilhadas pelas duas atrizes ao longo de décadas, não é apenas um projeto pessoal, mas um reflexo de uma tradição cômica nacional que se notabiliza pela força dos duetos e pela capacidade de cativar o público com humor acessível e empático.
A química entre Ingrid, de 54 anos, e Mônica, de 58 anos, é descrita como natural e intensa, fruto de uma juventude vivida em paralelo. Ambas passaram a adolescência juntas, viajaram para Caraíva nas férias, permaneceram solteiras no mesmo período, casaram-se em épocas próximas e deram à luz com poucos dias de diferença. Essa sintonia profunda foi fundamental para a construção da narrativa do filme, que acompanha as melhores amigas Julia e Clara, personagens batizadas em homenagem às filhas reais das atrizes.
A trama segue Julia e Clara, frustradas com suas vidas amorosas e profissionais, que decidem aproveitar um intercâmbio de suas filhas adolescentes para embarcar a Portugal e surpreendê-las. Ao chegarem a Lisboa, no entanto, precisam recalcular suas rotas e enfrentar os imprevistos da viagem. A diretora Susana Garcia, irmã de Mônica Martelli e amiga de Ingrid Guimarães, revelou que o processo criativo foi extenso. O primeiro corte do longa teve duração de três horas, exigindo a eliminação de 100 páginas do roteiro original para ajustar o ritmo e a narrativa.
Durante as gravações, a improvisação foi um elemento central. Susana Garcia relatou que uma cena planejada para durar dois minutos, filmada às 4 da manhã em Lisboa, acabou se transformando em uma tomada de doze minutos devido à conversa espontânea entre as atrizes. "Elas criam um mundo próprio", afirmou a cineasta. Em Sevilha, o calor intenso chegou a afetar o equipamento, mas também proporcionou momentos de descontração, como quando Mônica e Ingrid exploraram a cidade de biquíni durante um dia de folga, aproveitando o anonimato.
A diretora definiu sua especialidade como trabalhar com duplas que se divertem genuinamente umas com as outras. "Brinco que virei uma diretora especialista em duplas, e a particularidade dessa é que elas se divertem muito uma com a outra", disse Susana Garcia, citando seus trabalhos anteriores, como Minha Vida em Marte e Minha Mãe É Uma Peça 3.
A história do humor brasileiro é marcada por duetos icônicos. Na década de 1920, O Gordo e o Magro, formado pelos americanos Oliver Hardy e Stan Laurel, revolucionou o gênero e sobreviveu à transição para o cinema sonoro. No Brasil, a tradição se consolidou no rádio com Lauro Borges e Castro Barbosa, que protagonizaram o PRK-30 entre 1944 e 1964. Nas chanchadas, Oscarito e Grande Otelo brilharam, seguidos pela era dos Trapalhões, com Didi e Dedé, cuja parceria começou nos anos 1960.
Na contemporaneidade, a parceria de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch se destaca como um fenômeno atual, especialmente com o programa E.T. no Multishow e nas redes sociais. Sterblitch explicou que o sucesso se deve à falta de pudor na atuação. Mais recentemente, a amizade entre Gregorio Duvivier e João Vicente de Castro resultou no videocast Não ImPorta, do Porta dos Fundos. O programa semanal é o 15º mais ouvido do Brasil no Spotify e acumula 17 milhões de visualizações no YouTube.
João Vicente de Castro descreveu a dinâmica do grupo como uma amizade realista e franca, um antídoto para a solidão em tempos de pouco tempo social. "As pessoas têm pouco tempo para a vida social, então é como se estivessem escutando um papo de mesa bar enquanto dirigem", avaliou ele.
A evolução do humor acompanha as mudanças sociais. Na Era de Ouro do Rádio, entre as décadas de 1930 e 1950, programas com bordões caricatos eram fenômenos, como Balança Mas Não Cai, que ingressou na TV Globo em 1968. Tradições como o circo popular e o teatro de revista também influenciaram projetos audiovisuais, como Alô, Alô, Carnaval, dirigido por Ademar Gonzaga em 1936.
Miguel Jost, crítico de cultura e professor da PUC-Rio, explicou que a fundação da produtora Atlântida em 1941 industrializou o gênero, criando as primeiras estrelas da comédia brasileira. Décadas depois, os Trapalhões dominaram as bilheterias, ficando entre as vinte maiores do país. Cartunistas como Ziraldo, Millôr Fernandes e Henfil também usaram charges para criticar o regime militar, renovando uma tradição iniciada no século XIX.
Após o fim da Embrafilme em 1990, os comediantes retornaram aos palcos, abrindo caminho para a popularização do stand-up comedy. O tom das piadas adaptou-se ao politicamente correto, mas a fórmula dos bons duetos permanece: contraste físico ou de personalidade e entrosamento em cena, segundo Pedro Butcher, crítico de cinema da ESPM.
Desde 2006, entre os dezenove longas nacionais com mais espectadores, onze são de humor. O blockbuster Se Eu Fossa Você, com Tony Ramos e Gloria Pires, ganha uma terceira volume em setembro. Boa parte dos sucessos conta com nomes conhecidos, como Ingrid, Mônica, Leandro Hassum, Samantha Schmütz e Paulo Gustavo. A franquia Minha Mãe É Uma Peça levou 25,4 milhões de espectadores aos cinemas.
Pedro Butcher analisou que, em países onde as salas são dominadas por Hollywood, a comédia se destaca por ser um gênero barato e de larga escala. Miguel Jost complementou que a comédia é o único gênero em que o cinema nacional conseguiu construir continuidade industrial. Apesar do sucesso, Ingrid Guimarães defende que a comédia não deve ser vista como "prima pobre" da dramaturgia, mas sim como "prima rica".
A ciência também valida os benefícios do riso. A neurologista Paula Carolina Fernandes explicou que a risada genuína está ligada ao tronco encefálico e traz benefícios cardiovasculares e imunológicos. Mesmo o sorriso contido estimula a liberação de endorfina, dopamina e serotonina, ajudando a prevenir depressão e ansiedade.
Em tempos difíceis, o brasileiro tende a transformar tudo em piada. Miguel Jost afirmou que a comédia confere leveza às críticas sociais, enquanto Pedro Butcher descreveu o país como "tragicômico", capaz de ver graça nas próprias mazelas. Em Minha Melhor Amiga, o objetivo é provocar gargalhadas para depois emocionar o público com a temática da amizade.
Após anos de viagens e gravações, a dupla segue firme. Ingrid relatou um momento recente em que Mônica pediu que ela ficasse após um dia cansativo de trabalho. A resposta imediata de Ingrid foi afirmar que ficaria, completando uma história que começou a contar à parceira. Essa sintonia transborda das telas e promete mais uma vez boas gargalhadas ao público.
Z.Serrano--GM